Renato de Moraes: razão e sensibilidade

Quem cumpriu a nobre missão de advogar, com esse dom ímpar de construir amizade com os que defendeu em processos criminais tão árduos, não precisa de elogios. Basta essa singela descrição.


Não fomos amigos próximos. Não éramos íntimos. Considerávamos um ao outro combatentes da advocacia, cada qual a buscar, de diferentes modos, o reconhecimento dos direitos individuais nas defesas penais.


A relação profissional iniciou-se em 2009 em processo criminal, modelo de arbitrariedades. Logo nos unimos no esforço de ver declaradas nulidades e desmascarados os crimes que haviam sido perpetrados pela polícia judiciária, sob o os olhos de juízes e tribunais acovardados pela pressão política de então.


A mídia nos ofuscava com notícias nos dias de julgamentos importantes, sempre com o furo de pretenso novo crime descoberto nas investigações sujas que se faziam à época contra nossos clientes. Não perdíamos o humor e rememorávamos histórias de antigos advogados, como quem lembra dos heróis quando padece nas trincheiras.


Inteligência, ao Renato, não faltava. Mas, confesso, não era isso que mais me encantava no parceiro de batalhas jurídicas. O que me tocava era o ser humano, a todo tempo compadecido com as vicissitudes e sofrimentos que vivia o réu que defendia. Tanta sensibilidade, tanta preocupação traziam a ele emoção ao ver e ao falar com o inocente, ali injustiçado. Não à toa, anos mais tarde, volta e meia os encontrava na rua, caminhando ambos como bons amigos.

Advogados criminais sofrem muito. Falar com os mais experientes conforta, muitas vezes. Alivia o espírito rebelde que provoca nossa mente, ao pensarmos no que dizer da tribuna, com a vontade de bradar verdades sobre pessoas e personagens - verdades essas que nem sempre contribuem para a melhor estratégia. Acalmar essa fúria, diante da negação ao justo, se aprende com a forja do padecimento interior que precisa ser compartilhado com alguém.


Renato se mostrou um mestre nesse hábito. Era o advogado mais querido entre os mais velhos causídicos. Sabia ouvir, gostava de pedir conselhos. Daí, ser o preferido por todos os grandes advogados cariocas na defesa de corréus. Era maduro na juventude, mais sólido do que nós na experiência profissional, a qual adquiriu em razão dessa prática genial de escutar quem litigou mais.


Ontem veio a informação sobre o acontecido. As mensagens de tristeza chegaram de todos os cantos. Escrevi texto de conforto para o cliente dele, o mesmo de 2009. Ali não se perdia o defensor, desaparecia o melhor amigo.


Quem cumpriu a nobre missão de advogar, com esse dom ímpar de construir amizade com os que defendeu em processos criminais tão árduos, não precisa de elogios. Basta essa singela descrição.


Fica em paz. Guardo aqui seu exemplo, para mim e para os demais defensores.

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