top of page

De Lampião a Lázaro: a ostentação do suplício no Brasil

A morte dessas pessoas, de forma violenta, carrega a força de assentar que com o Estado estaria o monopólio da verdade sobre os crimes. Morto, logo culpado e resolvidos os casos sob investigação criminal.


Milhões acompanharam as perseguições a Lázaro Barbosa pela imprensa. Diante da parafernália estatal, alguns torceram por ele, fenômeno detalhado pelo livro de Eric J. Hobsbawm Rebeldes Primitivos (Primitive Rebels - Studies in archaic forms of social movement in the 19th and 20th centuries. New York-London: WW. Norton & Company, 1959), no qual se descreve a idealização social dessas figuras, não obstante a ficha criminal.


O resultado da caçada ao bandido da vez deu no previsível: a morte sem chance de se alcançar a autoria do homicídio. Muitos tiros de variados agentes. A justiça simples da polícia que o cotidiano nos mostra a todo tempo. Sem surpresa, vimos autoridades públicas elogiarem a ação policial, afinal, pretenso bem teria vencido o mal.


Chegada a notícia do fim da operação policial em Goiás, em poucos minutos, circularam pelo whatsapp as fotos de Lázaro, morto na maca do hospital, cravado de balas. A memória obriga a comparar o episódio recente de 28 de junho ao massacre de Lampião e seu bando em 28 de julho de 1938.


Como escreveu Aglae Lima de Oliveira: "A matança de onze bandidos, abatidos como bois, saldava alto tributo de expiação pelo grande mal que causaram à coletividade sertaneja. Entretanto, as cabeças decepadas e insepultas atestavam como era primitivo, desumano e macabro, o meio empregado para eliminar cangaceiros no Nordeste" (Lampião, cangaço e nordeste. Rio de Janeiro: Ed. O Cruzeiro, 1970, p. 369).

Como sabido, a idealização do cangaço, até pelo Cinema Novo, foi modo de representar a luta de classes no campo (Lustosa, Isabel. De olho em Lampião - violência e esperteza. São Paulo: Claro Enigma, 2011, p. 99), o que também nos remete à vida de Lázaro. Há matadores no interior, porque existe quem pague pelo serviço, em nome da propriedade da terra, até hoje.

Mas o paralelo vem à mente, muito mais, pela exposição do corpo desfigurado de Lázaro. Não há como esquecer das fotografias das cabeças de Lampião, Maria Bonita e outros do grupo de cangaceiros, as quais marcaram a imprensa da época e, depois, nossos livros de história (por exemplo: Mello, Frederico Pernambucano. Guerreiros do sol - violência e banditismo no Nordeste do Brasil. São Paulo: A Girafa ed., 2004).


Essa exibição da violência estatal, regozijada por muitos, mostra como o país mudou pouco da expedição do Tenente João Bezerra a Angico em 1938 para os dias atuais. As fotografias de ambos os fatos denotam que ainda se contempla o espetáculo punitivo, como se fazia nas execuções da pena de morte, em praça pública, até quase metade do século XIX na Europa.

A morte dessas pessoas, de forma violenta, carrega a força de assentar que com o Estado estaria o monopólio da verdade sobre os crimes. Morto, logo culpado e resolvidos os casos sob investigação criminal.


Como ressalta Michel Foucault, faz-se do criminoso o arauto de sua própria condenação: "E o corpo do condenado é novamente uma peça essencial no cerimonial do castigo público. Seu corpo mostrado, passeado, exposto, supliciado, deve ser como suporte público de um processo que ficara até então, na sombra; nele, sobre ele, o ato de justiça deve-se tornar legível para todos" (Vigiar e punir - nascimento da prisão. Trad. Raquel Ramalhete. 42ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2014, p. 45).


Por óbvio, essa teatralização da persecução com o padecimento do indivíduo corresponde à maneira de manifestação do poder das polícias, como se autorizadas pelos soberanos atuais a matarem em nome de pragmatismo que dispensaria o processo judicial. Curioso notar como o público não capta a mensagem política: existiria outra justiça que age fora do Direito, mas consoante a necessidade de todos.


Passados mais de 80 anos da divulgação dos macabros troféus dos crânios do agrupamento de Lampião, como os denominou Moacir Assunção (Os homens que mataram o facínora. Rio de Janeiro: ed. Record, 2007, p. 223), impressiona ver as pessoas aplaudirem o trabalho policial, exposto nas imagens do corpo dilacerado de Lázaro, sem entenderem o que significa a negação do controle da jurisdição penal pela mão de outros agentes públicos, incensados pelos políticos da ocasião.


O Brasil de Lázaro Barbosa e da ovação à brutalidade do Estado se apresenta cheio de incoerências sociais, pleno em silêncio de quem deveria bradar pelas formas legítimas de exercício da Justiça Pública.


Fica a dúvida: onde estão nossos intelectuais, nossos professores de Direito, que nada dizem sobre essa constatação tão óbvia?

14 visualizações

Posts recentes

Ver tudo

Comments


Commenting has been turned off.
bottom of page